Menino, que aparenta ter meses de vida, foi deixado na casa de uma família, na zona leste da capital, que agora luta pela guarda. ‘Amor em 24h’
A identidade de um bebê que aparenta ter entre seis meses e um ano de idade, abandonado na casa de uma família no Jardim Sapopemba, na zona leste de São Paulo, tem intrigado a Polícia Civil e mexido com os sentimentos de quem o acolheu. A polícia não tem registro de desaparecimento de recém-nascidos em um raio de 6km e ninguém sabe a origem do menino, que há duas semanas vive em um abrigo.
O drama da dona de casa Edileuza da Costa Sousa, de 60 anos, começou no início da tarde do último dia 16 de agosto, quando uma mulher jovem, bem vestida e com cerca de 20 anos bateu à sua porta com o bebê no colo.
A suposta mãe abordou Edileuza, que faz alguns serviços de costura para incrementar a renda pessoal, dizendo procurar por uma mulher chamada Lúcia, que trabalharia como babá e moraria naquela rua.
Edileuza respondeu que não conhecia ninguém com as características ou o nome fornecidos. Mas, a mulher, que se apresentou como mãe da criança, se aproveitou da emoção da dona de casa — que havia recebido a notícia da morte de um parente, ocorrida no estado de Pernambuco — e pediu para que ela tomasse conta do garoto até o dia seguinte, pois ela tinha um casamento para ir em Suzano, cidade da Grande São Paulo. A jovem ofereceu R$ 150,00 pelo “serviço”.
Surpresa, a dona de casa relutou em um primeiro momento, mas cedeu e aceitou ficar com o bebê, com a condição que a mãe do garoto deixasse os contatos pessoais. Porém, a suspeita se esquivou de passar mais informações sobre si, não apresentou documentos da criança e foi embora, deixando para trás apenas uma bolsa com mamadeira, chupeta, fralda e algumas roupinhas do menino.
Sumiço
No dia seguinte, data combinada para buscar o bebê, a jovem mãe não entrou em contato. Desesperados e com receio das consequências de manter uma criança desconhecida em casa, Edileuza decidiu acionar a polícia. Uma viatura da PM foi chamada e todos foram para a delegacia do bairro.
Assim, um boletim de ocorrência foi registrado e o menino entregue ao Conselho Tutelar. Imagens da suspeita com o bebê no colo descendo a rua foram entregues aos policiais do 69º DP (Teotônio Vilela), onde o caso foi registrado.
Edileuza imaginou que havia cumprido a obrigação de informar as autoridades e, em seguida, voltaria para casa com o bebê para tomar conta dele até que tudo fosse esclarecido. Agora, a dona de casa demonstrou aflição por não ter ficado com o garoto.
“Me arrependi. Achei que [o bebê] ficaria sob os meus cuidados. A criança é um anjo. Coloquei para dormir na minha cama entre mim e o meu marido”, contou Edileuza, que costuma fazer trabalhos comunitários em várias instituições da vila onde mora.
Porém, a dona de casa não acredita que a jovem tenha abandonado friamente o filho. Ela acredita que há uma razão para a mãe ter tomado uma decisão tão radical. “Acho que quis poupar o bebê de algo ruim. Ela mostrou que estava precisando de ajuda”.
A executiva de vendas Jéssica da Costa Sousa, de 28 anos, filha de Edileuza, reforça a agonia da mãe por não saber qual será o destino de Marlon ou mesmo se terá o direito de adotá-lo.
“Foi um amor em um pouco mais de 24h. A gente se apegou muito nele e pela situação toda. Ele e muito bonzinho. Não chorou, come bem, dorme bem. Minha mãe só sabe chorar. A gente perdeu o rumo”, desabafou.
Segundo Jéssica, a criança foi encaminhada para um abrigo e a família tem visitado o bebê desde então. Todos na casa planejam procurar a Justiça para tentar obter a guarda de Marlon.
“Se não encontrarem ninguém e a criança for destinada à adoção, a gente tem que ter prioridade para ficar com ele. Temos um laço de amor com ele”, completou.
Precipitação
Naquela noite de sábado, um dia depois de o bebê ter sido deixado com a família de Edileuza, uma mulher telefonou e se identificou como uma amiga da mãe de Marlon, que teria sofrido uma queda. Por isso, a jovem não teria tido condições de buscar o filho.
Ao saber que a polícia já havia sido envolvida, a mulher teria dito apenas que Edileuza havia se “precipitado” e desligou o telefone, sem deixar pistas sobre a origem de Marlon. Depois disso, não houve outros contatos.
“A gente não tinha alternativa de fazer o que fizemos. Pela ingenuidade da minha mãe, que quis ajudar aquela moça”, justificou Jéssica.
Mistério
A Polícia Civil instaurou um inquérito por crime de entrega de filho menor à pessoa idônea — Artigo 238 do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Uma equipe foi destacada para tentar descobrir a identidade da suposta mãe da criança.
Investigadores revelaram à reportagem do R7 que, nos últimos meses, não há registro de boletins de ocorrência de desaparecimento de bebês em um raio de 6 km, que abrange toda a área atendida pela 8ª Seccional de Polícia, responsável pela região.
Policial experiente, o delegado André Luiz Pimentel de Queiroz, titular do 69º DP, considerou o caso bastante incomum e se mostrou intrigado pelo fato de a jovem ter tido o cuidado de deixar o bebê em um local aparentemente seguro e desaparecido.
“A criança estava bem trajada, bem alimentada. A mãe pode ter entregado o bebê e se arrependido”, ponderou o delegado, revelando uma das hipóteses levantadas para o destino de Marlon.
Os policiais também analisam o conteúdo de dois vídeos com imagens de câmeras de segurança da rua, ambos fornecidos pela família de Edileuza, nos quais é possível ver a jovem caminhando com a criança no colo. Entretanto, a qualidade da gravação não permite ver com clareza o rosto da pessoa que está com Marlon.
Guarda temporária
O advogado especialista em direitos humanos, segurança pública e direitos da infância e juventude Ariel de Castro Alves, conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos de São Paulo), entende que a família de Edileuza pode solicitar a guarda provisória do garoto.
Para tanto, o advogado explica que será preciso demonstrar o vínculo entre a família interessada e o bebê com fotos, declarações de testemunhas que comprovem a boa fé e o propósito de acolher a criança.
“É melhor a criança estar na casa de uma pessoa idônea do que em um abrigo”, ressaltou o advogado Ariel de Castro Alves.
No entanto, o especialista frisa que a mãe tem o direito de recuperar o filho, caso reapareça, desde que justifique a ausência, pois teve o cuidado de não abandonar a criança na rua ou expô-la a riscos.
“Ela não cometeu um crime grave, pois teve a cautela de deixar a criança na casa de uma família. Poderia estar em depressão, até mesmo pós-parto, mesmo posteriormente, com problemas psicológicos ou psiquiátricos”, ponderou o advogado, lembrando o direito do “poder familiar” previsto em lei.
Agora, Edileuza e a família pretendem lutar contra o tempo para evitar que Marlon seja relacionado em uma fila de adoção e se distancie deles. O processo tramita na Vara da Infância e Juventude do Ipiranga.
“Não queremos tirá-lo da família. Mas [se for] para entregar para adoção, queremos lutar. A gente tem condições de criá-la. Essa criança veio parar na nossa casa. É uma história totalmente do contexto”, finalizou Jéssica.
Fonte: R7








