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Na Colômbia, tragédia das mulheres que precisam abortar tem endereço

Admilson Brum por Admilson Brum
5 de dezembro de 2019
em Destaques, Mundo
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Casas de estilo colonial no bairro Teusaquillo, na capital da Colômbia, fazem contraste com a história triste de mulheres que recorrem ao aborto ilegal

Fachadas de casas de estilo colonial no bairro de Teusaquillo, em Bogotá, capital colombiana, escondem lugares obscuros onde várias mulheres fazem abortos inseguros sob procedimentos que não seguem os protocolos médicos, colocando suas vidas em risco.

Segundo o estudo “Prevenção do aborto inseguro na Colômbia”, do Ministério da Saúde, cerca de 47 mil mulheres morrem anualmente em abortos clandestinos, dos quais 1.120 casos correspondem à América Latina e Caribe e 70 a Colômbia.

O núcleo do aborto em Bogotá é Teusaquillo, um dos bairros tradicionais da capital, onde locais clandestinos para esses procedimentos proliferam entre duas clínicas jurídicas.

Dificuldade de acesso ao aborto legal

Mulheres como Mariana, 21, são abordadas por “porta-cartões”, pessoas que distribuem cartões na rua que oferecem exames de ultrassom ou de gravidez que na verdade são um convite para comprar medicamentos para aborto ou aborto em lugares clandestinos.

“Comprei Misoprostol de uma mulher na rua, ela me explicou o que eu deveria fazer; cheguei em minha casa à noite e tomei duas pílulas por via oral e duas por via intravaginal, mas quando era uma da manhã senti uma dor que estava me rasgando por dentro e por fora. Eu tive que ir ao hospital”, explicou Mariana à EFE.

Em 2018, o Tribunal Constitucional da Colômbia ratificou as atuais regras para o aborto que o permitem em três situações: quando há malformação do feto, quando a gravidez constitui um risco para a saúde física ou mental das mulheres e em caso de estupros, todos sem limite de meses de gestação para a realização do aborto.

Mesmo assim, de acordo com o relatório “Aborto inseguro, mulheres em risco”, da organização Médicos Sem Fronteiras, as mulheres enfrentam múltiplas barreiras para acessar o aborto dentro dessas premissas no sistema de saúde colombiano, fazendo com que elas optem pelo aborto clandestino, colocando suas vidas em risco.

A dor silenciosa do aborto

“Eu me senti péssima, não porque eu fiz um aborto, mas porque eu tinha que fazer isso secretamente sem que ninguém percebesse”, disse Mariana com a voz embargada.

“Sinto que o aborto clandestino é um privilégio de classe porque eu tinha um EPS (seguro médico privado), mas há mulheres que não”, diz.

O Instituto Guttmacher estima que, apesar dos regulamentos, dos 400.000 abortos são realizados na Colômbia todos os anos e apenas entre 8 e 10% são realizados em instituições de saúde com garantia de qualidade.

As ameaças e julgamentos no hospital: ‘você é uma assassina’

Após um ano do aborto, Mariana diz que é doloroso lembrar do tempo que passou no hospital por causa dos danos psicológicos e emocionais causados. “Há mais a sequela de como as outras pessoas e a lei tratam disso do que do procedimento em si”.

Enquanto estava hospitalizada, Marina conta que “se sentiu julgada por algumas enfermeiras”, que também a enviaram para o andar neonatal, para que ela “compartilhasse um quarto com mais dez mulheres grávidas”.

A mulher conta que alguém do hospital abriu um processo judicial contra ela, fazendo com que ela vivesse um momento traumático. “Um investigador do Ministério Público chegou à meia-noite no hospital gritando que eu era uma assassina e ameaçando me levar para a cadeia”.

O ginecologista-obstetra Oscar Fernando Marroquín, da Fundação Oriéntame, que oferece serviços de aborto legal e voluntário na Colômbia, explica que quando vai aos centros de saúde para aumentar a conscientização sobre o assunto, observa que “a equipe está totalmente desinformada”.

Marroquín acredita que a objeção de consciência referente à ética e moral dos profissionais “é um direito do médico, mas não deve ser uma posição do centro de saúde, que deve aplicar adequadamente a regra e gerar rotas de cuidado”.

O preço de um aborto

A ginecologista-obstetra Alejandrina Camargo, do Médicos Sem Fronteiras, garantiu a EFE que nesses locais clandestinos “algumas mulheres recebem medicamentos intramusculares que podem levar a graves complicações médicas, como rupturas uterinas ou hemorragias muito complicadas”.

Esses procedimentos colocam em risco a vida das mulheres, a saúde mental e física e também “as expõem a pagar preços altos”, acrescentou Camargo.

O aborto em um local legal pode custar entre 500.000 e 1,2 milhão de pesos colombianos (de US $ 142 a US $ 341), enquanto em clínicas clandestinas ou com métodos inseguros, eles podem cobrar até três milhões de pesos (cerca de US $ 853).

Camargo, que atende uma média de 12 mulheres por semana, diz que três ou quatro delas já fizeram um aborto clandestino.

Direito de decidir

Em 2006, o Tribunal Constitucional descriminalizou parcialmente o aborto na Colômbia e exigiu que os centros de saúde, públicos e privados, treinassem o pessoal para prestar o serviço de interrupção voluntária da gravidez mas, ainda assim, apenas 11% destes têm rotas de atenção.

Apesar de tudo, os colombianos ainda não podem exercer seu direito com garantia, portanto, lugares como o bairro de Teusaquillo são o destino daqueles que estão determinados a fazê-lo a todo custo.

Fonte: R7

Tags: abortarMulheresprecisamSite Repórter Nettragédia

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