O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deixou de ser um território exclusivo de jovens recém-saídos do ensino médio. No Espírito Santo, mais de 9 mil pessoas com mais de 30 anos se inscreveram para a edição de 2025 — número que representa um crescimento de 58% em relação ao ano anterior, quando 5.764 adultos nessa faixa etária participaram da prova.
Com mais de 85 mil inscritos no Estado, o Enem atrai um público cada vez mais diverso. Segundo especialistas, a presença crescente de adultos se deve, principalmente, ao desejo de mudar de carreira, conquistar uma primeira graduação ou ampliar oportunidades no mercado de trabalho.
Embora a maioria dos candidatos ainda tenha entre 17 e 18 anos, os dados do Ministério da Educação (MEC) revelam um aumento expressivo na participação de pessoas mais velhas, o que reflete mudanças na dinâmica educacional e profissional do país.
A psicóloga especializada em recrutamento e seleção, Raquel de Lima Souza Rocha, destaca que os candidatos com mais de 30 anos geralmente já tiveram experiências profissionais e, em muitos casos, iniciaram ou concluíram uma formação anteriormente.
— Eles podem estar em busca de uma transição de carreira, atualização profissional ou qualificação para cargos mais exigentes. Esse público costuma ter maturidade, foco e um objetivo muito claro, o que contribui significativamente para o sucesso acadêmico e profissional — afirma.
A consultora de Recursos Humanos Janaina Bufon também ressalta os diferenciais desses profissionais no mercado:
— A maturidade, a entrega rápida de valor e o capital relacional são características que fazem toda a diferença nesse grupo. Eles agregam experiência e visão estratégica às equipes.
Exemplo de superação
Aos 73 anos, Maria Emília Filgueira da Silva é um exemplo inspirador dessa nova geração de estudantes adultos. Dona de casa por grande parte da vida, ela decidiu prestar o Enem e, em 2023, realizou o sonho de conquistar o diploma em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Natural do interior do Estado e uma entre nove irmãos, Maria Emília conta que nenhum deles pôde cursar uma faculdade, embora esse fosse o desejo do pai.
— Terminei a escola, me casei, tive filhos. Um deles ficou tetraplégico após um acidente, e passei anos cuidando dele. Mais recentemente, conversando com minha filha, falei da vontade de estudar, e ela me incentivou a tentar o Enem. Sempre li muito, o que me ajudou na prova. Consegui uma boa pontuação e fui aprovada — relata.
Hoje formada, Maria Emília chegou a receber propostas de emprego, mas atualmente se dedica aos cuidados do neto. Apesar disso, não descarta ingressar no mercado de trabalho em breve.







