O nascimento de um bebê costuma concentrar olhares, cuidados e preocupações em torno da criança. Mas, enquanto todos perguntam se o bebê está mamando, dormindo e ganhando peso, uma pergunta essencial muitas vezes fica de lado: como está a mãe?
No Brasil, mais de 485 mil mulheres podem ter sido afetadas pela depressão pós-parto, considerando a estimativa de 19,8% utilizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para países em desenvolvimento. No Espírito Santo, seriam mais de 10 mil mulheres.
Os números são estimativas calculadas a partir dos nascimentos registrados em 2025 no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do DataSUS, aplicando-se a proporção de 19,8%.
Por trás dos números estão histórias de mulheres que enfrentaram sofrimento intenso, muitas vezes em silêncio.
“Em momento algum as pessoas se preocuparam como eu estava me sentindo.”
O relato é de uma esteticista de 37 anos, que passou pelo pós-parto enfrentando pensamentos de morte e precisou de tratamento psiquiátrico e medicamentoso. Segundo ela, a atenção ao seu bem-estar ficou restrita principalmente à alimentação e à hidratação, por causa da amamentação.
“Quando minha filha estava com 3 anos comecei a fazer terapia e foi a partir daí que eu passei a amá-la de uma forma que eu nunca havia conseguido antes”, conta.
Quando a mãe deixa de ser vista
Para a médica de família e comunidade Taynah Repsol, a saúde mental da mulher precisa fazer parte da avaliação puerperal com a mesma importância dada aos aspectos físicos da recuperação.
Depois do nascimento, explica a médica, a atenção costuma se voltar quase integralmente para o bebê. Com isso, a mãe pode deixar de ser observada pela família e até por ela mesma.
“O profissional deve olhar para o estado emocional da mulher com a mesma seriedade com que examina a involução uterina ou a cicatrização perineal, e boa parte desse exame começa antes de qualquer pergunta, na simples observação de como ela chega e como se apresenta”, afirma.
A avaliação pode incluir a percepção de mudanças de comportamento, humor, sono, interação e outros sinais que indiquem sofrimento psíquico.
Mortalidade pode ser subestimada
O psiquiatra Joel Rennó Jr., professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenador da Comissão de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), chama atenção para outro problema: a possível subinformação das mortes maternas relacionadas à saúde mental.
Segundo ele, o Brasil possui histórico documentado de subinformação da mortalidade materna nas declarações de óbito.
Nos indicadores tradicionais, a Razão de Mortalidade Materna considera, em geral, mortes ocorridas durante a gestação ou até 42 dias depois do término da gestação.
“Não significa que o Brasil ignore completamente essas mortes depois dos 42 dias de puerpério, mas significa que os indicadores tradicionais podem não representar adequadamente toda a carga de mortalidade psiquiátrica ao longo do primeiro ano pós-parto”, explica.
A questão é especialmente relevante porque transtornos psiquiátricos podem persistir ou surgir ao longo dos meses seguintes ao nascimento, período em que a mulher continua enfrentando mudanças físicas, emocionais, familiares e sociais.
Cansaço faz parte. Sofrimento persistente, não
Nem toda tristeza ou exaustão depois do parto significa depressão. Algum nível de angústia e cansaço é esperado durante o puerpério, período marcado frequentemente por privação de sono, dificuldades na amamentação, adaptação aos cuidados com o bebê e mudanças na rotina.
A psicóloga perinatal Nayara Teixeira explica, porém, que a falta de apoio pode transformar essas dificuldades em um sofrimento maior.
“Se essa mulher não recebe os apoios necessários da família e de seu entorno, o que infelizmente é comum, ela se sente sobrecarregada e sozinha, o que pode gerar sofrimento”, afirma.
Por isso, é importante observar a frequência e a intensidade dos sintomas. Tristeza persistente, desânimo, alterações no apetite, prejuízos nos relacionamentos, sentimentos de culpa e inadequação podem indicar que é hora de procurar ajuda.
“Se há um sofrimento intenso e persistente, é fundamental buscar auxílio de profissionais de saúde mental, como psicólogos e ou psiquiatras, que poderão acolher a mulher, avaliar a situação e orientar a família”, orienta Nayara.
Um questionário que pode ajudar a identificar sinais
Uma das ferramentas utilizadas para rastrear sintomas de depressão no período perinatal é a Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo (EPDS).
O questionário tem 10 perguntas sobre como a mulher se sentiu nos últimos sete dias. Cada resposta recebe uma pontuação, e o resultado ajuda o profissional de saúde a identificar quem precisa de uma avaliação mais aprofundada.
A escala, entretanto, não estabelece sozinha um diagnóstico.
Entre os aspectos avaliados estão a capacidade de rir e encontrar o lado bom das coisas, o prazer em atividades anteriormente apreciadas, sentimentos de culpa, ansiedade, medo, alterações do sono, choro e pensamentos de autoagressão.
A pontuação total pode variar de 0 a 30. Quanto maior o resultado, maior a necessidade de investigação profissional. A pergunta relacionada a pensamentos de fazer mal a si mesma merece atenção especial: uma resposta positiva é um sinal de alerta e requer avaliação imediata.
Um estudo brasileiro publicado em 2026 na revista Cadernos de Saúde Pública, da Fiocruz, também validou a utilização da EPDS para avaliar sintomas depressivos durante a gestação, ampliando sua aplicação para o período pré-natal.
Para Joel Rennó Jr., entretanto, identificar o sofrimento é apenas o primeiro passo.
“Importante ressaltar que rastreamento sem assistência posterior efetiva é inútil, os serviços precisam estar preparados para não só fazerem avaliação psiquiátrica competente, mas também para intervenções psicológicas e biológicas rápidas em equipe multidisciplinar”, afirma.
“Eu chorava, passava as noites em claro”
A dimensão do problema também aparece na experiência de quem viveu o puerpério na própria pele.
O filho da jornalista Camila Lima nasceu em 2022. Na época, ela acreditava estar passando apenas pelo chamado baby blues, uma alteração emocional comum nos primeiros dias após o parto.
Só anos depois percebeu que o sofrimento havia ultrapassado o que considerava parte “normal” do puerpério.
“Eu chorava, passava as noites em claro velando meu filho.”
Além da dificuldade para amamentar, o bebê golfava muito. O medo de que ele aspirasse durante o sono era constante. A preocupação tinha ainda uma origem traumática: Camila havia perdido um primo, ainda bebê, que morreu asfixiado durante a noite, sem que a família percebesse a tempo.
A privação de sono agravou o quadro. Ela dormia duas ou três horas por noite e, enquanto o filho dormia, tentava retirar leite com uma bomba. Acordava esgotada, sem paciência e tomada por um sentimento de raiva.
“Não soube reconhecer os sinais e também não encontrei alguém que dissesse: ‘isso pode não ser apenas cansaço; procure ajuda’.”
Mais de um ano se passou até que ela começasse a se sentir melhor. As marcas, porém, permaneceram.
Somente no ano passado, ao procurar atendimento médico, ouviu que o sofrimento poderia estar relacionado ao puerpério. Hoje, faz acompanhamento e segue em tratamento.
“Conto essa história porque, se eu, uma jornalista que trabalha diariamente com temas de saúde, não consegui reconhecer o próprio sofrimento nem encontrei facilmente a quem pedir ajuda, talvez isso ajude a dimensionar o tamanho de uma lacuna que atinge milhares de mulheres.”
Cuidar de quem cuida
A depressão pós-parto não é sinônimo de falta de amor pelo bebê, incapacidade ou fracasso materno. O sofrimento pode atingir mulheres que desejavam profundamente a maternidade e que, ainda assim, enfrentam sintomas que não conseguem controlar sozinhas.
Por isso, especialistas defendem que o cuidado não termine no nascimento da criança. Consultas de pré-natal, acompanhamento puerperal e até consultas pediátricas podem ser oportunidades para observar também a saúde mental da mãe.
A mensagem central é simples: o bebê precisa ser cuidado, mas a mulher que cuida dele também precisa ser vista.
Reconhecer sinais, perguntar como ela realmente está e oferecer acesso rápido a profissionais capacitados pode fazer a diferença entre enfrentar o sofrimento em silêncio e receber ajuda no momento em que ela mais precisa.




















