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Quando não se tem casa e a coberta fica na rua

Soluções Interativas por Soluções Interativas
23 de novembro de 2018
em Geral
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Era pequena a chama que subia da fogueirinha que, às 23 horas de segunda-feira, 21, queimava abastecida por pedaços de madeira e papelão em frente à Catedral da Sé. Mas conseguiu aquecer quatro meninos, de não mais de 14 anos, em mais uma noite fria na cidade de São Paulo. Ali, segundo o pouco que falaram, cada um estava por si. E quando acabasse o fogo? “Cada um se encolhe no seu canto e aguenta.”

A frente fria que chegou no fim de semana a São Paulo, vinda do Sul, tem agravado as dificuldades a que estão submetidos os milhares que formam a massa uniforme coberta do pé à cabeça, vista à noite pelo centro. Há tentativas de manter uma rede informal de ajuda, mas brigas, ações voluntárias limitadas e a percepção de falta de apoio do poder público – o atendimento a um morador de rua após chamado por telefone pode levar até três horas – fazem com que apenas a solidariedade não seja suficiente.

Na Praça da Sé, até segundo quem está em outras praças e largos do centro, ficam os “noias” e, por isso, a convivência lá é mais difícil. Só que no início da madrugada de ontem, Roberto Oliveira, de 59 anos, estava em pé e sóbrio na frente da barraca onde tentavam dormir a mulher e os filhos. Falou com clareza sobre a sua situação de rua, que começou em 2016, sete anos depois de chegar de Minas. “Claro que o frio é uma dificuldade, mas o problema é que estamos na rua. Eu queria estar em uma casa. Não sou o culpado por estar aqui, estou passando necessidade e procurando todo dia por emprego. O frio é mais uma dificuldade contra o meu objetivo de sobreviver a esta noite”, disse ele que, após trabalhar com serviços de limpeza e como garçom, hoje faz bicos descarregando caminhões.

Perto dali, no Pátio do Colégio, a sobrevivência estava atrelada à estratégia. É como pensa o catador de material reciclável André Ulisses Casagrande, de 44 anos. Primeiramente, ele posicionou as sacolas com papelão que recolheu durante o dia na parede da Secretaria da Justiça, para evitar ser atacado por qualquer corrente de vento. Depois, pegou um dos papelões e pôs sobre o chão, para só então se cobrir com dois cobertores, um deles guardado de outro dia e o outro que ganhou naquela noite, por doação.

Seriam três os cobertores que garantiriam a ele um sono relativamente mais tranquilo, mas enquanto saiu para tentar a sorte na fila do sopão, com uma confusão porque alguém quis furá-la, um outro alguém levou o seu conforto extra. “Não vai dar para dormir o tempo todo, mas a gente se ajeita da forma que consegue.”

Assim como Casagrande, o vendedor José Antônio, de 50 anos, disse preferir a rua a ser acolhido em um dos abrigos municipais. Os motivos vão desde brigas no interior das unidades, passando por supostas regras rígidas, como acordar às 5 horas da manhã, a problemas de infraestrutura. “Fui encaminhado hoje para um Atende (Atendimento Diário Emergencial), na Luz. Mas lá é um lixo, os banheiros são muito sujos, preferi sair. Aqui é mais tranquilo”, disse.

Roberto Oliveira, da Praça da Sé, defende a inclusão no serviço de assistência social de apoio à busca de emprego. “Hoje, o serviço se resume a comer, dormir e brigar. Quem quer isso?” Do seu lado, Efigênio da Hora, de 42 anos, queria. Só com um cobertor fino, foi a baixa temperatura que o convenceu mais rapidamente. Mas faltava quem o levasse. Ao Estado, o atendente do 156, acionado para atender Efigênio, disse que em razão da alta demanda o veículo poderia demorar até três horas para chegar ao local.

Qualquer cidadão pode telefonar para o número 156, da Prefeitura, e pedir atendimento a um morador de rua, para que seja transportado a um albergue público. O serviço funciona 24 horas por dia.

Paiçandu

Também sofrem com o frio as cerca de 300 pessoas, que desde o dia 1.º, estão no Largo do Paiçandu após desabar o Edifício Wilton Paes de Almeida. “Somos os esquecidos. Mas eles (moradores de rua) são os esquecidos dos esquecidos. Temos de ajudar um ao outro”, disse Rafael Ribeiro, de 32 anos, que morava havia cinco anos no 1.º andar do prédio. “Até quando os secretários vão dormir no quentinho e nos deixar nessa situação? Todo mundo já se esqueceu da gente.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

FONTE:FOLHA VITÓRIA

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