Recordista de participaA�A�es no Mundial como tA�cnico (seis), brasileiro relembra polA?micas, tristezas e alegrias e enaltece Tite por devolver a autoestima aos jogadores apA?s fracasso de 2014

Carlos Alberto Parreira A� o homem que mais vezes treinou seleA�A�es em Copas do Mundo: foram seis ediA�A�es por cinco paA�ses diferentes. CampeA?o em 1994 com o Brasil, nos Estados Unidos, ele tambA�m comandou o Kuwait (Espanha-1982), os Emirados A?rabes (ItA?lia-1990), a ArA?bia Saudita (FranA�a-1998), novamente o Brasil (Alemanha-2006) e a anfitriA? A?frica do Sul (2010). O carioca, nascido no subA?rbio de Padre Miguel hA? 75 anos, estarA? na RA?ssia, daqui a menos de dois meses, liderando o Grupo de Estudos TA�cnicos da Fifa, responsA?vel pelos relatA?rios sobre tendA?ncias tA?ticas e tA�cnicas das 64 partidas do megaevento, de 14 de junho a 15 de julho.
Entusiasmado com o convite da Fifa, ele vive uma mistura de curiosidade e ansiedade pelo que pode ser apresentado pelas seleA�A�es participantes. E, nA?o menos, pelo que a seleA�A?o brasileira A� capaz de mostrar, quatro anos apA?s a derrota por 7 a 1 para a Alemanha e o fracasso em casa.
– SA? um futebol como o brasileiro se recupera de uma derrota como aquela e chega na Copa do Mundo seguinte como um dos favoritos – afirma Parreira, que elogia o trabalho de Tite, aponta seus favoritos e relembra erros e acertos de outros Mundiais nesta entrevista ao GloboEsporte.com.
GLOBOESPORTE.COM: Em todos esses anos frequentando Copa do Mundo desde 1970, como tA�cnico, auxiliar, preparador fA�sico, coordenador e trabalhando para a Fifa, o que o senhor espera ver na RA?ssia?
PARREIRA: As equipes atingiram um nA�vel tA�cnico, tA?tico excepcional. Basta ver as eliminatA?rias europeias, sul-americanas e a Champions League, que, no meu entender, tem os melhores jogadores atuando naquela competiA�A?o. A tendA?ncia A� futebol de equipe, futebol compactado, com qualidade tA�cnica, velocidade nos passes, movimentaA�A?o intensa, transiA�A�es rA?pidas ofensivas e defensivas. Acho que isso nA?o vai mudar para a Copa. Cada vez menos um ou dois jogadores fixos dentro da A?rea, jogadores com versatilidade muito grande, que tenham capacidade de se movimentar, de rodar pelo campo e de serem efetivos na hora da conclusA?o. Acho que nA?o vai fugir disso.
Que estilos podemos ver?
– A imposiA�A?o de um estilo. Sem dA?vida alguma, as equipes tecnicamente melhores vA?o tentar impor sua maneira de jogar, com o domA�nio do jogo atravA�s do passe.
Tite falou em quatro grandes favoritas (Alemanha, Brasil, Espanha e FranA�a) e mais trA?s seleA�A�es (BA�lgica, Portugal e Argentina) que correm por fora. SA?o mesmo essas?
– Isso (o favoritismo) nA?o ajuda nada em Copa do Mundo. A verdade A� essa. Chega na hora da verdade, as coisas mudam. Pelo retrospecto, o Brasil, pela recuperaA�A?o que teve, pela eliminatA?ria que fez, pela consistA?ncia com que o time estA? jogando, de maneira equilibrada. A SeleA�A?o (brasileira) A� pouco agredida. Faltou a essa seleA�A?o que ela sofresse um pouquinho. NA?o sei se isso A� bom ou ruim. Ela nA?o sofreu porque ela se impA?s de uma maneira categA?rica em toda a eliminatA?ria e em todos os jogos amistosos, em casa ou fora.
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O senhor jA? falou do Brasil. E as outras favoritas?
– A Alemanha, que A� campeA? do mundo, ganhou a Copa das ConfederaA�A�es, recuperou o time, renovou a equipe. Tem alguns jogadores que irA?o, sem dA?vida alguma, acrescentar essa coisa importante de experiA?ncia na hora da competiA�A?o, junto com os jovens de valor. A� um futebol que se renovou tecnicamente. A Espanha tem que ser considerada. NA?o A� mais um time sem conquistas. Ganhou a Copa do Mundo, ganhou Eurocopas, tem jogado de maneira muito consistente, com muita tA�cnica, com estilo do Barcelona, de posse de bola, de se impor categoricamente, sem ter o homem de referA?ncia na A?rea. O Isco estA? numa fase excepcional. Acho que Brasil, Espanha, Alemanha. Eu viria com Argentina, FranA�a e BA�lgica, que ficou devendo aqui no Brasil (em 2014), mas manteve a base. Com certeza, eles devem crescer.
Portugal, nA?o?
– Portugal, pela maneira como se comportou, de uma maneira muito equilibrada, pragmA?tica, eu diria atA�, na Eurocopa (de 2016). Tem um jogador que A� um dos melhores do mundo, o Cristiano Ronaldo. E a Inglaterra, que mudou sua maneira de jogar, com a bola mais no chA?o, tecnicamente. A Argentina, muita gente diz, a�?Ah! Tomou de seis (da Espanha)a�?… A Argentina tem bons jogadores, tradiA�A?o e o melhor jogador do mundo, que A� o Messi.
O que um tA�cnico de seleA�A?o que quer ser campeA?o do mundo precisa fazer nos dois meses finais atA� a estreia na Copa?
– Essa A� a fase do polimento. Tudo que tinha de ser feito, jA? foi feito. NA?o A� agora que vocA? vai preparar o time para a Copa. Os amistosos que faltam, na Inglaterra, vA?o servir para polir para o ajuste final. A maneira de jogar estA? definida. O grupo estA? praticamente definido. A tA?tica estA? definida. A� torcer para que os jogadores cheguem inteiros. A confianA�a retornou. O time estA? confiante, sabendo de seu poderio e, com certeza, muito mais experiente do que na Copa anterior, aqui no Brasil. VocA? nA?o monta um time durante a Copa do Mundo. Raras vezes aconteceu isso. A� manter o que foi feito atA� agora. NA?o tentar inventar nada agora, querer redescobrir a roda.
“O time estA? pronto. A� chegar, jogar e se impor”.
A volta do Neymar em cima da hora, somente em maio, pode criar alguma dificuldade?
– Pela idade do Neymar (26 anos), ele A� jovem, tem muita energia. Neymar A� muito bom, fisicamente. Nos testes que fizemos com os jogadores em 2014, o Neymar foi o melhor praticamente em todos os testes. De campo e laboratA?rio, ele foi um dos melhores. Sem dA?vida alguma, com essa parada de trA?s meses, ele vai voltar com uma fome, com uma vontade… Acho que num primeiro jogo, ele nA?o vai chegar no topo de sua forma, mas, ao longo da competiA�A?o, sA?o atA� sete jogos, com certeza, ele vai chegar no final da Copa inteiro.
Lembrando da Copa de 2014, quando o Brasil perdeu de 7 a 1 para a Alemanha, e avanA�ando atA� hoje: o Brasil conseguiu se reconstruir e chegar como favorito em 2018. Para o senhor, como se explica essa reconstruA�A?o?
– Foi feito um trabalho fantA?stico. ComeA�ou com o Dunga, entrou o Tite, que, realmente, deu essa confianA�a. Ele restituiu a confianA�a aos jogadores. Essa autoestima A� fundamental. A� evidente que os resultados ajudam. Ele (Tite) jA? comeA�ou ganhando do Equador de 3 a 0, que era um jogo em que se o Brasil perdesse de 1 a 0, ninguA�m iria reclamar de perder na altitude de Quito. Se o empate seria muito bom, ganhar de 3 a 0 foi maravilhoso. Ganhou o segundo, ganhou o terceiro, a autoestima e a confianA�a voltaram. A alegria voltou. DaA� para frente, o time se consolidou tA�cnica e taticamente. E mentalmente. O Tite sempre pede que mostre desempenho. Desempenhar da melhor maneira possA�vel. A� aA� que aparecem as individualidades.
Se o senhor pudesse dar apenas um conselho ao Tite para a Copa, somente um, qual seria?
“Siga a sua filosofia, a sua intuiA�A?o, aquilo em que vocA? acredita”
– Se vocA? me perguntar da Copa de 1994, daquilo que a gente lembra, gosta, tem orgulho e prazer, foi que nA?s conquistamos a Copa do nosso modo, da nossa maneira. NinguA�m queria que jogassem Mauro (Silva) e Dunga. Eram os trogloditas, os brucutus e tal, tal, mas, naquele momento, eles eram importantes, para termos dois atacantes, que eram Bebeto e RomA?rio, que nA?o participavam das jogadas sem a bola. A gente precisava ter um Mauro e um Dunga. TA�nhamos laterais que apoiavam muito bem: era Cafu, era Jorginho, era Leonardo, era Branco. Tinha o RaA�, que era um bom meia, mas saiu e entrou o Mazinho, que deu uma consistA?ncia ao time. EntA?o, mantenha suas ideias e filosofia. Mude quando algo precisar ser mudado.
No A?ltimo jogo da eliminatA?ria da Copa de 1994, quando o senhor convocou o RomA?rio, foi a sua filosofia, ou ouviu alguA�m?
– (BalanA�a a cabeA�a negativamente)A�Sempre me perguntavam (os jornalistas): a�?O RomA?rio estA? fora da Copa?a�? Respondia: a�?NA?o estA?. RomA?rio A� um jogador importantA�ssimoa�?. NA?s sA? estA?vamos aguardando o momento adequado para trazA?-lo de volta. Se nA?o fosse naquele jogo (contra o Uruguai), com certeza, seria para a Copa do Mundo. A� que se criou um clima naquele momento, eu diria, quase insustentA?vel se a gente trouxesse o RomA?rio. Na eliminatA?ria, o time foi se ajustando, ganhando. Eu estava em Angra dos Reis, liguei o rA?dio e ouvi: a�?a BolA�via ganha da Venezuela e acaba de se classificar para a Copa do Mundoa�?. Eu falei: a�?PQP! Vai explodir na nossa mA?o esse jogo!a�? NA?o A� mais um amistoso (Brasil x Uruguai). Se a BolA�via empatasse ou perdesse, seria. O Brasil nA?o poderia mais perder. O jogo passou a ser importantA�ssimo. EstA?vamos com o Muller contundido, o Valdeir nA?o havia se saA�do bem contra a Venezuela; o Viola, o Bebeto era dA?vida… e o RomA?rio, arrebentando lA? no Barcelona. No trajeto de Angra para o Rio de Janeiro, sA?o duas horas. Minha cabeA�a veio pensando naquilo tudo. E aA� decidi: a�?Vou trazer o RomA?rio. O jogo agora A� diferentea�?. Cheguei em casa, peguei o telefone e falei: a�?Zagallo, tA? trazendo o RomA?rio!a�?. Na hora, o Zagallo (respondeu): a�?Parreira, perfeito!a�?. Liguei para o AmA�rico (Faria): a�?AmA�rico, prepara a passagem delea�?.
“RomA?rio chegou na segunda ou terA�a-feira, treinou e arrebentou com o jogo. NA?o foi uma imposiA�A?o de ninguA�m. Foi uma decisA?o de momento”.
Foi criado um clima ruim com o RomA?rio?
– NA?s nunca brigamos com o RomA?rio. O clima que havia sido criado A� que nA?o propiciava (a volta, antes)… O amistoso com a Alemanha, Porto Alegre…
– Eu falo da CBF seleA�A?o brasileira, que estA? ligada A� CBF, sem dA?vida alguma. SeleA�A?o brasileira, em termos de organizaA�A?o, A� um exemplo. Quando ganhamos em 1994 e em 1970, a organizaA�A?o foi perfeita. NA?o tA�nhamos os recursos financeiros que temos hoje. Agora, entA?o, quando hA? recursos, o trabalho A� excepcional. NA?o hA? seleA�A?o no mundo com o apoio tA�cnico e de infraestrutura que nA?s temos aqui no Brasil. O Tite tem A� disposiA�A?o dele uma comissA?o tA�cnica de altA�ssimo nA�vel. NA?o falta nada. O treinador pede, a CBF disponibiliza. Existe uma CBF tA�cnica, a da seleA�A?o brasileira, e a CBF polA�tica. A SeleA�A?o vai jogar no Brasil, contra a Argentina: eu nunca me envolvi se vai jogar no Rio, em SA?o Paulo, em Porto Alegre ou em Minas. Deixa o presidente decidir. Ele tem seus interesses. Para nA?s, nA?o faz diferenA�a. Eles nA?o se envolvem com a parte tA�cnica, dA?o todo apoio.
O senhor chegou a tA�cnico da SeleA�A?o pelo momento em clubes: o surpreendente Bragantino de 1991, para a Copa de 1994, e o Corinthians, para a de 2006. E a seleA�A?o de 1994 lhe abriu portas aos clubes europeus, como Valencia e o FenerbahA�e. Ainda acredita que foi o momento certo deixar a seleA�A?o em 1994?
– Se eu tenho algum arrependimento no futebol, foi essa saA�da. NA?o A� para o Valencia. Em 1994, o Brasil nA?o conquistava uma Copa do Mundo fazia 24 anos. Eu nA?o aproveitei aquela alegria do povo brasileiro, aquele compartilhamento, de dividir com o torcedor. Dez dias depois (da conquista), eu jA? estava em ValA?ncia. Eu nA?o deveria ter saA�do do Brasil, naquele momento de alegria.
O senhor sairia da SeleA�A?o, mas nA?o sairia do Brasil e do futebol brasileiro?
– Exatamente. Como a gente A� correto, eu havia conversado com o dirigente do Valencia antes da Copa e falado que iria. SA? que nA?o havia assinado nada. Na hora em que terminou, eles vieram, e eu cumpri a minha palavra. Eu sA? informei ao Ricardo Teixeira (entA?o presidente da CBF). Ele me disse que nA?o haveria problema. SA? me pediu para nA?o comentar nada. Eles (o Valencia) tambA�m mantiveram sob segredo. NA?o dA? para estar numa Copa do Mundo discutindo contrato com outra equipe. Foi um arrependimento muito grande.
O senhor disse que se aposentou do futebol, mas continua levando uma vida intensa. Agora, irA? chefiar o Grupo de Estudos TA�cnicos da Fifa na Copa do Mundo da RA?ssia. Como tem sido a sua rotina?
– Eu me aposentei do futebol, mas nA?o da vida. Tenho meus hobbies, como fotografia e pintura, e uma coisa que me dA? muito prazer, que A� um curso de pA?s-graduaA�A?o em futebol no FundA?o (na Universidade Federal do Rio de Janeiro), a escola onde eu me formei. A� uma responsabilidade dar um curso de um ano e meio, A�s segunda e terA�as-feiras.
O que o senhor deseja na Copa do Mundo da RA?ssia?
– Nesse momento em que o mundo passa por conflitos polA�ticos muito grandes, guerras, desastres, queria ver uma Copa do Mundo harmoniosa, em paz, de confraternizaA�A?o. A RA?ssia A� um paA�s dominado com mA?o de ferro. Que eles pudessem se abrir para o mundo, com as belezas que eles tA?m. A� um paA�s potencialmente e economicamente muito forte. Espero que eles possam proporcionar a todos os visitantes uma Copa em paz, em harmonia e com grandes qualidades de jogo e de espetA?culo. Que a gente possa sair de lA? feliz. Estive lA? em 1980, na OlimpA�ada (de Moscou), com a seleA�A?o do Kuwait, e tenho recordaA�A�es maravilhosas. Naquele momento, a RA?ssia era UniA?o SoviA�tica, bem diferente do que A� hoje. A� um paA�s de um artesanato muito rico, com muita coisa para se analisar e se conhecer.
E se o Brasil ganhar a Copa, quatro anos apA?s o desastre dos 7 a 1?
– A� o resgate daquela derrota. O Brasil vem lutando por esse hexacampeonato desde 2006, 2010 e 2014. Foram trA?s Copas em que nA?s nA?o conseguimos carimbar o hexa. Eu torA�o para que aconteA�a agora, pelo trabalho que foi feito, por esses jogadores que estA?o se dedicando. A gente sente que o ambiente estA? muito positivo. Sem dA?vida alguma, isso vai concretizar a hegemonia mundial, a supremacia do futebol brasileiro. Nenhuma seleA�A?o conseguiu ainda ganhar seis Copas. E nem cinco, como a gente. Em 2002, eu estava lA? no Grupo de Estudos TA�cnicos da Fifa, e o Brasil foi campeA?o. No Rio-2016, foi campeA?o olA�mpico. Sou pA�-quente. QuentA�ssimo!
FONTE:GLOBO ESPORTE




















