De copo vazio na mA?o, Pedro Henrique Cellia anda prA?ximo ao alambique de cobre que fica na Fazenda TupA?, distrito de Desencanto, em Linhares, Norte do Estado. Para se chegar ali, A� preciso percorrer 16 quilA?metros em estrada de chA?o a partir da BR 101.
A� lA?, A�s margens do Rio Doce, que A� produzida a cachaA�a Princesa Isabel. a�?Meu pai, AdA?o Cellia, A� um estudioso da bebida, mestre alambiqueiro. Ele queria ter um produto brasileiro de qualidade, por isso o projeto de elaboraA�A?o da cachaA�a foi devagar. Em 2013 comeA�ou a alambicar e, trA?s anos depois, a envazar. SA? em novembro do ano passado comeA�amos a comercializar, somos superjovens no mercadoa�?, conta Pedro que recebeu a equipe da Revista.AG na primeira quinta-feira de junho.
Poucas horas antes, ainda pela manhA?, a cana-de-aA�A?car havia sido colhida e moA�da, para ser fermentada e destilada no alambique. a�?O nosso processo A� feito com rigor. A cana, que A� plantada aqui, A� colhida e limpa a mA?o. NA?o existe queima. As palhas ficam no canavial servindo como adubo. Ela sempre A� cortada e moA�da no mesmo dia, para evitar a deterioraA�A?o do aA�A?car. E os alambiques de cobre garantem uma destilaA�A?o perfeitaa�?, conta Pedro que A� mA�dico e ajuda o pai na administraA�A?o do negA?cio. Por dia sA?o moA�das quatro toneladas de cana o que resulta na fabricaA�A?o de 600 litros de cachaA�a.
Envelhecida em barris de diversos tipos de madeiras – carvalho americano, carvalho europeu, amburana, jaqueira, jequitibA?-rosa e bA?lsamo – a Princesa Isabel jA? anda fazendo sucesso no exterior. A intitulada Aquarela, que fica trA?s anos em dornas de jequitibA?-rosa, foi premiada com a medalha de prata no Concurso Mundial de Bruxelas, em janeiro deste ano. a�?Foi uma degustaA�A?o A�s cegas de especialistas. A� uma bebida muito equilibrada, frutada, que tem a doA�ura e o cheiro da cana. Por aqui ela jA? fazia sucessoa�?, conta Pedro.
Na propriedade tambA�m sA?o produzidas a cachaA�a Ouro (envelhecida durante trA?s anos em barris de carvalho francA?s, americano e amburana), a TradiA�A?o, que A� um blend exclusivo de bA?lsamo com jaqueira, e a vedete da marca chamada de Jaqueira, que A� armazenada em barris de jaqueira e tem um padrA?o floral. a�?A A?rvore jaqueira tombou na nossa plantaA�A?o de cacau, meu pai cortou os galhos dela, e os deixou mergulhados na represa por seis meses. Depois fizemos os barris. No Estado somos os A?nicos que temos esses barrisa�?, conta Pedro com orgulho. As cachaA�as da propriedade – Aquarela, Ouro e Jaqueira – ganharam a medalha de prata na ExpocachaA�a, que aconteceu no inA�cio do mA?s, em Belo Horizonte.
Ele explica que nA?o existe uma madeira melhor ou pior para o envelhecimento da bebida. a�?No Brasil jA? temos catalogadas mais de 30 madeiras nacionais para envelhecer bebidas. Poder envelhecer em madeiras diferentes A� um grande diferenciala�?, diz. A Fazenda TupA? tem capacidade de produzir atA� 100 mil litros por ano, mas tem feito cerca de 20 mil litros por ano de uma cachaA�a que tem o nome em homenagem a matriarca da famA�lia, Maria Isabel de Moraes. Hoje a bebida A� queridinha de restaurantes badalados e bares descolados de SA?o Paulo, como o Jiquitaia, Bar Guarita, EmpA?rio Sagalena e EmpA?rio Sagarana. a�?MA?s passado teve uma festa do Guia Michelin – que A� considerado a bA�blia da gastronomia mundial -, em SA?o Paulo, e a nossa cachaA�a foi a bebida da festaa�?, conta Pedro sorrindo, enquanto preparava uma caipirinha de limA?o siciliano na cozinha da propriedade, jA? no fim de tarde.
A� do Brasil
As primeiras mudas de cana-de-aA�A?car, planta natural do Sudeste AsiA?tico, chegaram ao Brasil com a expediA�A?o de Martim Afonso de Sousa pelo litoral paulista. Os registros das primeiras plantaA�A�es de cana sA?o de 1504. HA? ainda referA?ncias de que o primeiro engenho de aA�A?car foi construA�do em 1516, na Feitoria de ItamaracA?, criada pelo Rei D. Manuel no litoral pernambucano.
Na bagagem dos portugueses tambA�m vieram alambiques de destilaA�A?o, que logo passaram a ser usados para produzir o ancestral da cachaA�a, o a�?vinho da terraa�?. TambA�m conhecida como a�?jeribitaa�?, e feita com o caldo da cana-de-aA�A?car, pouco tempo depois a bebida ganhou o nome de cachaA�a. O batismo vem da palavra espanhola cachaza (vinho inferior).
A verdade A� que ela A� a bebida que mais representa o Brasil. Segundo o A?ltimo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatA�stica (IBGE), sA?o quase 12 mil estabelecimentos produtores no paA�s, mas existem estimativas somadas de associaA�A�es regionais que chegam a quase 15 mil estabelecimentos. Mas devidamente registrados no MinistA�rio de Agricultura e Receita Federal sA?o menos de dois mil, com quatro mil marcas. Os principais estados produtores sA?o: SA?o Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, CearA?, Minas Gerais e ParaA�ba. Embora o EspA�rito Santo nA?o entre neste ranking, a bebida produzida por aqui A� considerada uma das melhores. Percorremos mais de mil quilA?metros de carro para saber, inclusive, porque algumas delas jA? vA?m conquistando prA?mios internacionais.
Qualidade e sabor com 100 anos de histA?ria
Hoje, Paulo Soares A� o responsA?vel pela cachaA�a que jA? era produzida por seu bisavA?, ThimA?teo
Foto: Carlos Alberto Silva
Neste perA�odo de safra da cana-de-aA�A?car, que vai de maio a setembro, todos os dias chega uma caminhA?o abarrotado dela em uma propriedade de Afonso ClA?udio. a�?JA? chegamos a ter 90% da cana plantada na nossa fazenda. Hoje, a safra coincide com a do cafA�, e a topografia nA?o ajuda, por isso trazemos a maior parte de MarataA�zes. Mas ainda temos um pouco de plantaA�A?o aquia�?, diz Paulo Roberto Dias Soares.
A� na propriedade fundada pelo bisavA? dele, Francisco ThimA?teo Dias, que ele produz uma das cachaA�as mais antigas do nosso Estado: a Thimotina, existente desde 1915. a�?Ao longo dos anos melhoramos a qualidade da bebida. Hoje nA?o deixamos passar 48 horas entre o corte da cana e a moagem. Antigamente havia um descontrole, e isso faz muita diferenA�a na qualidade finala�?, diz. JA? o bagaA�o que sobra A� vendido para outra propriedade, que faz composto para a produA�A?o de cogumelos.
Paulo conta que produz cinco tipos de cachaA�a: entre branca e envelhecidas. a�?A branca nA?o A� de alambique, mas feita em coluna de destilaA�A?o contA�nua. Nela nA?o separamos a cachaA�a em fraA�A�es, como acontece na de alambique, para a qual sA? aproveitamos o coraA�A?oa�?, explica. As demais sA?o envelhecidas em dois tipos de madeira, o carvalho (europeu e americano) e a amburana a�� atualmente existem na propriedade 88 barris de 200 litros e quatro barris de 500 litros, respectivamente. O xodA? da famA�lia A� a sA�rie Premium, feita para comemorar os 100 anos, completados em 2015. A bebida ficou envelhecida durante 10 anos no carvalho e sA? foram produzidas 840 garrafas feitas com vidro importado da FranA�a. Uma garrafa chega a custar R$ 380.
Para ele, a cachaA�a se popularizou, conquistando inclusive as mulheres. a�?O consumo estA? aumentando entre elas, que geralmente preferem uma cachaA�a mais leve. O carvalho A� mais robusto e deixa a bebida mais forte. JA? a amburana e a jatobA? a suavizama�?, fala. Naquela manhA? em que visitamos a fazenda, a produA�A?o estava a todo vapor. Este ano serA?o moA�das trA?s mil toneladas de cana, resultando numa produA�A?o de 300 mil litros de cachaA�a.
Aposta na pequena produA�A?o
Luciana Vivacqua, da cachaA�a Da Mata: “JA? fornecemos para uma joalheria famosa do Rio de Janeiro”
Foto: Carlos Alberto Silva
Comparada a outras propriedades, a Da Mata, em Santa Teresa, tem uma produA�A?o pequena: sA?o produzidos apenas cinco mil litros por ano. a�?Ao ano produzimos uma quantidade que outras cachaA�arias produzem por hora. Mas nosso foco sempre foi essea�?, conta Luciana Peixoto Vivacqua.
A fabricaA�A?o comeA�ou em 1992 numa fazenda rodeada de Mata AtlA?ntica, daA� o nome de cachaA�a. a�?Nossa cachaA�a A� orgA?nica. Produzimos a cana-de-aA�A?car no nosso terreno. Ela A� cortada manualmente e nA?o A� queimada. O processo de fermentaA�A?o nA?o tem nada de quA�mica, sA? usamos o fubA? de milho, que tambA�m A� orgA?nicoa�?, conta Luciana, orgulhosa.
Ao todo sA?o produzidas trA?s tipos da bebida: a ouro, que A� envelhecida durante trA?s anos em barris de jequitibA? e tem uma coloraA�A?o dourada; a branca que fica descansando em tonA�is de aA�o inox; e a Luar que A� uma mistura das duas anteriores. A produA�A?o deste ano jA? estA? toda feita e a bebida estA? armazenada nos barris.
A venda acontece principalmente no Estado, mas algumas garrafas jA? foram para o Rio de Janeiro. a�?Durante um tempo fornecemos para uma joalheria carioca famosa. Eles se encantarama�?, conta ela, que tambA�m tem uma ediA�A?o limitada. a�?Ela foi envelhecida em barris de Carvalho durante cinco anos. A� uma produA�A?o mA�nima, mas ficou uma maravilhaa�?.
Fonte:Gazeta online







