Polícia Civil inicia “Operação Cartão Vermelho” para investigar arbitragem; Rabello é preso em flagrante

Agentes fazem buscas em 13 endereços nesta quarta, incluindo Ferj e a casa do ex-chefe da comissão de arbitragem Jorge Rabello, detido por posse ilegal de arma de fogo. Suspeitas são: organização criminosa, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro

O Núcleo de Investigação à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (NIC-LD) da Secretaria de Polícia Civil do Rio de Janeiro iniciou nesta quarta-feira a Operação Cartão Vermelho em diversos endereços relacionados à cúpula da arbitragem carioca. No total, são 13 mandados de busca e apreensão por suspeitas de organização criminosa, falsidade ideológica e de lavagem de dinheiro.

O principal alvo da operação é Jorge Rabello, que presidiu a comissão de arbitragem da Federação de Futebol do Rio por mais de uma década. Rabello acabou preso em flagrante durante a busca em seu endereço no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio de Janeiro, por posse ilegal de arma de fogo. No seu apartamento, foram apreendidos documentos, equipamentos eletrônicos e um revólver calibre 38 com munições.

Rabello e outros dois suspeitos que trabalhavam no Sindicato dos Árbitros Profissionais do Estado do Rio de Janeiro (Saperj) e na Cooperativa de Árbitros de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Coopaferj) tiveram seus sigilos bancário e fiscal quebrados pela 19ª Vara Criminal.

Messias José Pereira é ex-presidente da Coopaferj e apontado como “testa de ferro” de Rabello, enquanto Sérgio Mantovani Cerqueira é ex-contador da entidade. De acordo com a petição dos mandados assinada pelos delegados Aloysio Falcão e Marcio Teixeira de Melo, Rabello e Messias apresentam evolução patrimonial incompatível com as respectivas funções.

Na residência de Messias foram apreendidos notebook, celular e uma pasta com documentos.

Até a publicação desta reportagem não foi possível o contato com Jorge Rabello. Sérgio Mantovani e Messias Pereira não quiseram dar declarações no momento. A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro informou que “tomará conhecimento do motivo do mandado de busca e apreensão e prestará, como sempre, os esclarecimentos necessários”.

Além da quebra de sigilo e das buscas, foi pedida prisão temporária de Rabello e Messias., bem como o bloqueio de bens. Os dois pedidos foram negados pela Justiça. O relatório do inquérito da Polícia Civil explica que a apuração partiu de uma denúncia anônima corroborada por diligências e depoimento pessoal de duas testemunhas.

Reportagens do GloboEsporte.com denunciando o uso de verbas das entidades para pagamento de despesas pessoais através de cartões corporativos e outras irregularidades na Coopaferj e no Saperj foram incluídas no processo.

Também foi anexada uma entrevista do GloboEsporte.com com Mantovani – publicada no dia 16 de março de 2016 – na qual, segundo o relatório da Polícia Civil, ele dá a entender que ” presta satisfações acerca dos fatos que envolvem a Cooperativa” a Rabello. O relatório dos delegados afirma que Mantovani “tem total conhecimento e provável participação no fato da Cooperativa ter seu registro com sede em Saquarema, sem jamais ter funcionado no endereço ideologicamente falso, fornecido aos órgãos estatais, bem como, dos desvios de recursos, caso tenham existido”.

O documento elaborado pela Polícia Civil para pedir os mandados de busca e apreensão explica:”Os indícios apontam no sentido da existência de um grupo de pessoas que, com vontade livre e consciente, de forma estável, profissionalizada, preordenada com estrutura hierárquica definida e com repartição de tarefas, agregam-se em associação criminosa para cometimento de crimes contra o patrimônio de e o branqueamento dos ativos daí decorrentes”.

A operação prevê também apreensão de materiais como “HDs, laptops, smartphones, pen drives, arquivos eletrônicos de qualquer espécie, agendas manuscritas ou eletrônicas e documentos, dos investigados e de suas empresas, quando houver qualquer suspeita que contenham material probatório relevante”.

Em abril deste ano, o presidente da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj), Rubens Lopes, promoveu uma mudança na comissão de arbitragem, a integrando em um departamento sob a direção de Luiz Mairovitch. Na comissão de arbitragem, Rabello deixou a presidência para dar lugar ao seu vice José Carlos Santiago. Rabello passou a comandar somente escola de árbitros.

Evolução patrimonial

O inquérito aborda a questão da evolução patrimonial de Rabello e Messias. Diz o texto, sobre Rabello:

“Apresenta alto padrão de vida, com patrimônio superior a R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais), conforme apurado até aqui, sendo necessário perquirir a licitude de sua evolução patrimonial, levando-se em conta também que a denúncia recebida neste núcleo policial indica evolução patrimonial incompatível com a renda, fato que também não passou despercebido pelas testemunhas, que informam em suas declarações a incompatibilidade existente entre renda e gastos de Jorge Rabello, indicando o desvio das verbas das instituições. (…) Destaca-se: que Jorge Rabello antes de se tornar o Presidente do Sindicato possuía uma padrão de vida modesto, residindo no bairro do Colégio, um dos piores IDHs do Município e tinha um carro Siena, que tal realidade mudou bruscamente quando passou assumir a Comissão de Arbitragem da FERJ em 2007”.

Sobre Messias, o relatório da polícia cita um veículo SUV no valor aproximado de R$ 85 mil e aluguel de apartamento com valor médio mensal de R$ 3 mil. Messias é apontado como “testa de ferro” de Rabello. O documento cita declarações de testemunha que “não deixam dúvidas quanto ao papel figurativo” na presidência da Coopaferj.

O documento relata uma passagem narrada por uma das testemunhas:

“Certa vez foi apresentado um cheque em nome da Cooperativa e Jorge Rabello mandou Messias assiná-lo, ocorre que houve um questionamento de Messias quanto à origem daquele cheque e o secretário da comissão de arbitragem, Roberto Faustino, o repreendeu dizendo que ele não tinha que saber do que se tratava”.

Desvio de recursos

Segundo a petição da Polícia Civil, Rabello é “acusado de vender a sede do sindicato, sem autorização, sendo o destino do valor percebido com a transação ignorado pelos sindicalizados, levantando a suspeita de fraude na alienação do imóvel, bem como, indevida destinação dos valores auferidos, supostamente algo em torno de R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais). Há suspeita também de que Jorge Rabello e Messias José Pereira utilizavam dinheiro das entidades em exame, para pagar despesas pessoais, através da indevida utilização de cartões de crédito corporativos”.

O uso de recursos das entidades para pagamento de despesas pessoais com cartões corporativos foi denunciado pelo GloboEsporte.com no dia 15 de fevereiro deste ano.

Escalas

O relatório da Polícia Civil também aborda a questão das escalas, afirmando que, “como bem asseverado” pela equipe de investigação, “a Cooperativa é responsável por escalar os árbitros para os jogos, assim, a Cooperativa, sob o comando de Jorge Fernando Rabello, através de interposta pessoa por ele designada, o suposto “testa de ferro” Messias José Pereira, deixava de escalar qualquer árbitro que se insurgisse contra o interesse de Jorge Rabello, principalmente no que tange à disputa pela presidência do Sindicato dos Árbitros, fato este que fez com que Jorge Rabello se mantivesse à frente do Sindicato, por mais de uma década, sem qualquer disputa”.

Fonte: G1