O que se sabe sobre as mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes

As últimas horas de Marielle, o atentado, as investigações, as delações e o envolvimento da milícia: um resumo do caso que desafia as autoridades desde 14 de março.

A vereadora do PSOL Marielle Franco e o motorista dela, Anderson Gomes, foram mortos no Estácio, bairro na Região Central do Rio, no dia 14 de março de 2018.

O caso é tratado como sigiloso pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. A Polícia Federal se ofereceu para assumir as investigações, mas o estado declinou.

Três momentos se destacam até aqui.

  1. A delação que acusou o vereador Marcello Siciliano e o miliciano Orlando Curicica – ambos negam.

  2. A afirmação do secretário de Segurança, general Richard Nunes, de que Marielle foi morta por supostamente ameaçar grilagem de terras da milícia.

  3. A prisão do PM reformado Ronnie Lessa, apontado como autor dos disparos; e do ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, que dirigia o carro, segundo as investigações – não foi esclarecido quem são os mandantes nem se há relação com as duas linhas apontadas.

Abaixo, um resumo do dia do atentado e das investigações subsequentes.

O dia 14 de março de 2018

  1. 19h: Marielle chega à Casa das Pretas, na Rua dos Inválidos, Lapa, para mediar debate com jovens negras.

  2. Um Chevrolet Cobalt com placa de Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense, para próximo ao local.

  3. Quando Marielle chega, um homem sai do carro e fala ao celular.

  4. 21h: Marielle deixa a Casa das Pretas com uma assessora e Anderson. Pouco depois, um Cobalt também sai e segue o carro de Marielle.

  5. No meio do trajeto, um segundo carro se junta ao Cobalt e persegue o veículo de Marielle.

  6. 21h30: na Rua Joaquim Palhares, no Estácio, um dos veículos emparelha com o carro de Marielle e faz 13 disparos: 9 acertam a lataria e 4, o vidro.

  7. Marielle e Anderson são baleados e morrem. A vereadora foi atingida por 4 tiros na cabeça. Anderson levou ao menos 3 tiros nas costas.

  8. Assessora é atingida por estilhaços, levada a um hospital e liberada.

  9. Criminosos fugiram sem levar nada.

    O QUE FOI APURADO

    • A arma foi utilizada foi uma submetralhadora MP5 9 mm; tiros foram disparados a uma distância de 2 metros.

    • A munição pertencia a um lote vendido para a Polícia Federal de Brasília em 2006. A polícia recuperou 9 cápsulas no local do crime.

    • O então ministro da Segurança, Raul Jungmann, diz que as balas foram roubadas na sede dos Correios na Paraíba, “anos atrás”.

    • Na sequência, o Ministério da Segurança afirma que, na verdade, a agência dos Correios na Paraíba foi arrombada e assaltada em julho de 2017 e no local foram encontradas cápsulas do mesmo lote de munição.

    • Balas do mesmo lote foram utilizadas na maior chacina do Estado de São Paulo, em 2015, e também nos assassinatos de 5 pessoas em guerras de facções de traficantes em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio.

    • A polícia acredita que assassinos observaram Marielle antes do crime porque sabiam exatamente a posição dela dentro do carro. A vereadora estava sentada no banco traseiro – algo que não costumava fazer – e o veículo tem vidros escurecidos.

    • Testemunhas: assessora de Marielle e uma segunda pessoa foram ouvidas sobre o caso.

    • A polícia reuniu imagens de câmeras de segurança, mas 5 das 11 câmeras de trânsito da Prefeitura do Rio que estavam no trajeto de Marielle estavam desligadas.

    • A investigação ganhou um reforço de 5 promotores, a pedido do responsável pelo caso.

    • Um vereador do Rio e ex-PM miliciano foram citados por uma testemunha.

    • Em julho de 2018, o ex-PM Alan de Morais Nogueira, suspeito de envolvimento no caso, foi preso numa operação sobre outro crime. Até o momento, entretanto, a participação dele não é conhecida

    • Em março de 2019, foram presas duas pessoas acusadas de executarem o crime: o PM reformado Ronnie Lessa, autor dos disparos, e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, que dirigia o veículo.

      A delação

      Quase dois meses após o crime, em maio, uma publicação do jornal O Globo deu indícios do que pode ter sido a articulação para matar Marielle. A reportagem mostrou que uma testemunha deu à polícia informações que implicaram no crime o vereador Marcello Siciliano (PHS) e o ex-PM e miliciano Orlando Curicica.

      A testemunha – que integrava uma milícia na Zona Oeste do Rio e foi aliado de Orlando – contou à polícia ter testemunhado uma conversa entre Siciliano e o miliciano na qual os dois arquitetaram a morte da vereadora. A motivação para o crime, segundo a testemunha, seria a disputa por áreas de interesse na região de domínio de Orlando.

      “Ela peitava o miliciano e o vereador. Os dois [o miliciano e Marielle] chegaram a travar uma briga por meio de associações de moradores da Cidade de Deus e da Vila Sapê. Ela tinha bastante personalidade. Peitava mesmo”, revelou a testemunha, de acordo com o jornal.

      Tanto Siciliano quanto Orlando negam ter planejado a morte da vereadora. No mês seguinte à publicação de O Globo, o miliciano foi, a pedido da Segurança Pública do RJ, transferido para uma unidade prisional de segurança máxima.

      Inclusive, o ex-PM Alan de Morais Nogueira, preso em julho de 2018 juntamente com o ex-bombeiro Luís Cláudio Ferreira Barbosa, em julho de 2018 têm estreita relação com a milícia de Curicica, chefiada por Orlando, segundo a polícia. Para investigadores da Delegacia de Homicídios, a dupla matou outros dois integrantes do grupo criminoso a mando do miliciano simplesmente porque havia a suspeita de um “golpe de estado” na quadrilha.

      PONTOS DA DELAÇÃO

      • Um testemunha diz que Marcello Siciliano (PHS) e Orlando Curicica queriam Marielle morta.

      • A motivação seria avanço de ações comunitárias da vereadora na Zona Oeste.

      • Conversas sobre o crime teriam começado em junho de 2017.

      • Ex-aliado de Orlando citou, além de Siciliano e o miliciano, outras quatro pessoas.

      • Homem chamado “Thiago Macaco” teria levantado informaçõessobre Marielle.

      A REAÇÃO DE ORLANDO

      Orlando Curicica pediu para ser ouvido pelo Ministério Público Federal. Alegou que estava sendo pressionado pela polícia do Rio para assumir a autoria do assassinato de Marielle.

      O Jornal Nacional teve acesso, com exclusividade, ao que Orlando disse a dois procuradores federais no dia 22 de agosto.

      No depoimento, Orlando Curicica contou que o responsável pela Divisão de Homicídios, Giniton Lages, esteve no presídio de Bangu em maio. O delegado queria ouvi-lo confessar que matou Marielle a mando do Siciliano. Ele se referia ao vereador Marcelo Siciliano, do PHS, e à delação que acusou ambos.

      Orlando acusa a testemunha de ser um miliciano que se desentendeu com ele. Orlando disse ter respondido ao delegado Giniton Lages que não tinha envolvimento com o caso e que o delegado teria pedido então para ele acusar o vereador Marcelo Siciliano:

      “Fala que o cara te procurou, pediu para você matar ela, você não quis, e o cara arrumou outra pessoa. Mas que o cara que pediu para matar ela”.

      Orlando recusou e disse que foi ameaçado. Falaram que iam transferi-lo para um presídio federal e colocariam mais três ou quatro homicídios na conta dele.

      Grilagem como motivação

      Em entrevista ao “Estado de S.Paulo” em dezembro de 2018, o então secretário de Segurança do RJ, general Richard Nunes, afirmou que a vereadora Marielle Franco foi morta por milicianos que viam nela uma ameaça a negócios de grilagem de terras na Zona Oeste do Rio.

      A fala de Nunes veio um dia após operação malsucedida para prender suspeitos de envolvimento no crime.

      A ENTREVISTA

      Nunes falou ao “Estadão” no dia 14 de dezembro.

      “Era um crime que já estava sendo planejado desde o final de 2017, antes da intervenção”, disse o secretário.

      “Ela estava lidando em determinada área do Rio controlada por milicianos, onde interesses econômicos de toda ordem são colocados em jogo”, prosseguiu. “O que leva ao assassinato da vereadora e do motorista é essa percepção de que ela colocaria em risco naquelas áreas os interesses desses grupos criminosos”, emendou.

      “A milícia atua muito em cima da posse de terra e assim faz a exploração de todos os recursos. E há no Rio, na área oeste, na baixada de Jacarepaguá, problemas graves de loteamento, de ocupação de terras. Essas áreas são complicadas”, continuou Nunes.

      Ainda segundo o secretário, Marielle vinha conscientizando moradores sobre a posse da terra. “Isso causou instabilidade e é por aí que nós estamos caminhando. Mais do que isso eu não posso dizer”, afirmou.

      Operação Os Intocáveis

      Em 22 de janeiro, cinco pessoas foram presas em uma operação contra milícia que age em grilagem de terras no Rio. Entre eles, estava um major da PM e um tenente reformado.

      Agentes da Polícia Civil que trabalham no caso Marielle Franco consideraram a prisão do major Ronald Paulo Alves Pereira estratégica para a investigação. Eles suspeitam da participação dele na morte da vereadora, mas não especificaram qual seria o nível de envolvimento.

      De acordo com o Ministério Público, o major Ronald era um dos principais envolvidos no mercado imobiliário ilegal na região de Rio das Pedras.

      O major Ronald foi homenageado em 2004 pelo deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), que propôs uma moção de louvor a ele na Assembleia Legislativa do RJ (Alerj). O ex-capitão Adriano da Nóbrega, que está foragido, recebera a mesma homenagem do filho do presidente um ano antes.

      PM e ex-PM presos

      Em 12 de março de 2019, dois dias antes de o crime completar 1 ano, a Polícia Civil e o Ministério Público do RJ prenderam o homem apontado como o autor dos disparos que mataram Marielle e Anderson: o policial militar reformado Ronnie Lessa, de 48 anos.

      Na mesma operação, batizada de Lume, também foi preso o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, que foi expulso da corporação em . Ele é apontado como o motorista do carro usado no crime.

      Lessa e Queiroz foram denunciados por homicídio qualificado de Anderson e Marielle, e pela tentativa de homicídio de Fernanda Chaves, assessora da vereadora que também estava no carro.

      Segundo o MP, Marielle foi “sumariamente executada em razão da atuação política na defesa das causas que defendia”.

      O MP e a Polícia Civil, entretanto, não esclareceram quem foram os mandantes do crime.

      FONTE: G1