O menino que via sacis
Sou jornalista de ofício. Mas, de vez em quando, me aventuro pelo terreno da música e da literatura. Conto contos. Como o do menino que via sacis e que morreu nos braços de sua mãe, vítima do ataque traiçoeiro de uma cascavel.
Quem gostar e quiser divulgá-lo, citando-me como autor, fico muito grato. Leia, por favor.
O menino que via sacis
Conto de João Magalhães
A cascavel deu o bote e Andrezinho correu para Alice, gritando. Foram duas horas de agonia e dor. Finalmente, apertando o rosto da mãe contra o seu, ele fechou os olhos.
A fazenda Bem-Querer fica a um dia de Boa-Vista, a progressista capital de Roraima. É bonita de ver. Um mundo de igarapés a circundeia.
Ao longo de seus campos sempre úmidos pelas chuvas, crescem imensos buritizais. Alice gostava daquele cheiro de mato.
Sentia-se radiante quando saía a cavalo, com Andrezinho na garupa. A mágoa, o rancor, a culpa, o medo, todos os pesadelos que a atormentavam noite e dia, desfaziam-se enquanto ela galopava a esmo pela magnífica paisagem.
Só naqueles instantes esquecia o passado: os anos felizes de sua pré-adolescência no Rio de Janeiro e o tempo cruel em que ficou no baixo meretrício de Boa-Vista, durante quase toda sua gravidez.
Menino Esperto
Alice vivia em Bem-Querer há dez anos. Nela, Andrezinho nasceu. Foi um momento de muito pânico, mas também de gratidão, quando o bebê deslizou por suas pernas e, estapeado pela água fria do riacho, choramingou.
Alice olhou para as árvores ao seu redor, para o céu e agradeceu. A Natureza tinha feito seu parto.
Andrezinho cresceu como um caboclo. Aos sete anos, conhecia cada pedaço de chão de Bem-Querer e das terras vizinhas.
Era um menino esperto, inteligente. Olhos castanhos, grandes, iguais aos da mãe. Há duas semanas, Alice tinha feito planos. Ia levá-lo para Boa-Vista. Lá, ele faria o primário e o ginásio.
Depois, ela daria um jeito de mandá-lo para o Rio – segundo grau, faculdade. “O garoto”, pensou, seria publicitário, como o pai”.
- Como ele é, mãe?
Andrezinho imaginava o pai como um homão alto, moreno, forte. Como um anjo de guarda a lhe proteger dos perigos da mata. Como um amigo com quem poderia esclarecer suas dúvidas e aafugentar seus receios.
Veneno Na Perna
Em seu delírio de morte, o garoto viu o pai chegando de mansinho, sorrindo-lhe. “Me beija, pai”. E sentiu o carinho daquela figura desconhecida, por quem tantas vezes tinha clamado.
- Mãe, está tudo escuro. Mãe…
Alice ficou sem ação. Fez de tudo o que podia para salvar o filho. Chupou-lhe o veneno entranhado na perna, deu-lhe as beberagens dos índios caiapós, bezuntou-o com ungüento de tripa de macaco e aplicou-lhe a reza das bezendeiras.
Por fim, deitou-o no chão e soltou um grito tão terrível, que os porcos, galinhas, a meia dúzia de cabeças de gado e o alazão de Andrezinho deram de correr feito loucos, como se o estampido de um trovão anunciasse o fim do mundo.
Horas mais tarde, quando o primo Alcides apontou no portal da fazenda, Alice tinha acabado de abrir a cova e fincar na terra uma cruz meio torta, feita com dois pedaços de lenha velha.
- Meu Deus! O que houve, prima? – perguntou Alcides, apeando apressadamente do cavalo.
- Olha, ele… Ele se foi.
- Mas, como…
- Picada de cascavel, Alice contou, sem saber direito o que falava.
- Meu Deus! Venha, vamos para a cidade, disse Alcides, sabendo que a prima não sairia dali tão cedo.
- Não. Só arredo o pé daqui pra me juntar a ele. Vá avisar os parentes.
Alcides fitou Alice por uns minutos. E viu o rosto de desespero, da revolta daquela moça sofrida, que, desde os 18, anos enfrentou todo tipo de adversidade para criar o filho. Saiu a galope, sem acreditar ainda na morte estúpida de Andrezinho.
Limpo De Nuvens
Alice ficou sentada num toco de mangueira, a cabeça entre as pernas, recordando o dia em que Andrezinho chegou esbaforido e lhe contou:
- Eu vi um saci, mãe. Ele me apareceu, gargalhando, no redemoinho de poeira levantado por uma ventania. Ele me disse que logo, logo, eu ia para o mundo dele. Que lá era muito divertido. Eu fiquei assustado. Será que vou morrer cedo, mãe?
- Cala a boca, menino! Você vai crescer, ficar um moço bonito e se formar. Eu juro que assim será.
O dia se apagou de vez em Bem-Querer. As estrelas, como de costume, recheavam o céu, agora negro, mas limpo de nuvens. A maior de todas, a preferida de Andrezinho, brilhava mais do que nunca.
A muito custo, Alice levantou-se. Foi até a pequena cozinha, olhou para o prato ainda cheio de farofa de míudos e dois ovos fritos – o almoço do filho – e, então, somente então, chorou.










João, meu amigo!
Um muito belo conto e lhe garanto que sobre, tenho alguma autoridade.
Sem contar os autores que antes lhe disse (Dalton Trevisan, meu ídolo)a Literatura de contos é minha preferida. Andei escrevendo também, muitos, para jornais.
Com o tempo e com o acúmulo de informações, a internet, o desejo de fazer um uso supra literário da Literatura de textos curtos (poemas, contos e crônicas) me fez por criar um projeto educacional, pelo qual envido esforços, pode te fazer (num futuro breve, espero) um colaborador.
Bem, para ter uma idéia melhor, precisas de algum tempo.
Veja em http://www.clubeletras.net/org e, inclusive, um filme lá disposto e a menção que o projeto encontra-se inscrito no Google, em seu projeto 10 para 100.
E fico feliz por saber-te contista também e com facilidades para a diversidade de teores temáticos.
Será um prazer, um dia (repito: breve, espero) ver seus contos sendo lidos por milhões de crianças em nosso país.
Abraços!
Olá, Sérgio
Suas palavras são gratificantes. Vou até o Clube das Letras tomar conhecimento do projeto. Mas, desde já, conte com minha torcida para que ele se torne realidade e beneficie, como você disse, milhões de crianças brasileiras.
Abraço fraternal
Olá, Sérgio
Suas palavras são gratificantes. Vou até o Clube das Letras tomar conhecimento do projeto. Mas, desde já, conte com minha torcida para que ele se torne realidade e beneficie, como você disse, milhões de crianças brasileiras.
Abraço fraternal
Em tempo: estou divulgando o Clube das Letras no meu blog.
Abraços
Parabéns, João! Excelente conto. Deu saudades dos tempos que escutava muito sobre folclore brasileiro. Saci, Curupira… Hoje em dia é tão raro, nem sei se ainda abordam isso nas escolas, espero que sim.
Parabéns mais uma vez!
Abraços
fazia tempos que eu nao lia um conto.com que alegria(apesar de ser um conto triste)eu o li .Muito bonito .parabens. Um abraço
Olá, xará
Fico feliz que tenha gostado do conto. Obrigado pela visita e volte sempre.
Grande abraço