A coca que virou cola
Mais um post da série Conto um conto e escrevo versos – minha humilde obra literária que está engavetada há décadas.
Como disse antes, resolvi publicá-la aos poucos, quando me der na veneta, para que a próxima geração dos Magalhães se lembre que na família existiu um certo João, nascido em Boa-Vista, Roraima, em mil novecentos e qualquer coisa.
A Coca que virou cola
Conto de João Magalhães
Ele chegou com três papelotes de cocaína. Abriu-os sobre a mesinha de centro, com tampa de vidro, fez quatro carreirinhas e aspirou uma a uma.
Genaro só olhava, em silêncio.
Seu filho Mateus tinha mergulhado no mundo das drogas aos 13 anos. Estava com 26 e continuava nele, se afundando cada vez mais.
No dia anterior, tinha sangrado a veia na sua frente, para injetar uma dose da branquinha. Duas semanas antes, com medo que Mateus se matasse, de tanto fissurado que estava, Genaro o tinha levado até um ponto da pesada, ao pé de de um morro carioca.
Mas, e se a polícia chegar, de repente? – ele perguntou ao filho.
- Não chega. O dono é um delegado – respondeu Mateus, sem qualquer constrangimento.
Genaro não se conformava com o vício do filho. Mas sabia uma das razões por que ele tinha enveredado por esse caminho. Esteve ausente da educação de Mateus quando ele mais precisava: na passagem da infância para a adolescência.
E, agora, na sala de seu apartamento, presenciava, mais uma vez, a cena que se repetia em seus pesadelos.
Não sabia mais o que fazer. Tinha internado o jovem quatro vezes em clínicas diferentes. Mas, depois do período de desintoxicação, ele reiniciava sua jornada para o inferno.
Terminada a sessão de cocaína, Mateus, com aquela expressão de cinismo misturado com arrependimento, que caracteriza o adicto, olhou para o pai, esboçou um sorriso de canto de boca e saiu.
Genaro só foi ter notícias do filho três meses depois. Foi através de um telefonema do IML de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
- Seu Genaro? Genaro Freitas de Lima? Tem um filho de nome Mateus?
- Sim, sim – balbuciou Genaro, já sufocado pela dor da alma e pelas lágrimas que corriam por seu rosto.
- Por favor, venha reconhcer o corpo, para podermos liberá-lo para o enterro.
Em meia hora, Genaro chegou ao IML.
- É… é ele – confirmou ao funcionário de plantão, que, secamente, entregou-lhe um pedaço de papel.
- Foi a única coisa que encontramos nos bolsos dele – disse o rapaz.
Com as mãos trêmulas, Genaro leu:
“Pai, estou bem melhor. Consegui largar a cocaína e o crack. Agora, estou só cheirando cola. Em breve estarei de volta.”










Belo conto, João. E relata bem a realidade de muitas famílias. Parabéns!
Abraços
Parabéns, Joao! Muito tocante.
Abs!
Olá, Dani
Que imenso prazer vê-la por aqui. Suas palavras me estimulam a escrever mais.
Obrigado mesmo pela visita e pelo comentário
Grande abraço
Caro João
Este é um conto que todos gostaríamos que fosse fictício. Mas, não é.
Olá, Joselito
É, acontece na vida real. Obrigado pela visita e pelo comentário. Volte sempre.
Abraços
Olá Magalhães,
Emocionante o texto. Episódios desta natureza foi vivida por minha tia, na cidade do Rio de Janeiro. Lindo, lindo meu primo. Quantas noites eu presenciei cenas iguais, quando passava temporada com ela. Até que um dia ele foi encontrado morto no Recreio dos Bandeirantes.
Outro fato que muito me comoveu recentemente, foi quando eu li o livro da Bell Marcondes, que usou droga por longos anos e editou um livro e hoje faz mais ou menos 5 anos que está em abstinência.
Abraços e felicidade pelo seu conto. Suedmar
Olá, Suedmar
Suas palavras me comoveram. Muito, mas muito obrigado mesmo por seu comentário, um dos poucos que recebi sobre o conto. Espero contar sempre com sua visita.
Abraço fraternal.